7.12.08

A quem ?

A quem deflagras, a quem tu declamas,
A arte desfalecida da vivência?
A quem da monotonia reclamas?
A quem ergues a tua decadência?
A quem bradas, inutilmente chamas?
Tu e tua incoerente inferência,
Esta que com teu palavrear inflamas,
A quem teu inútil faz reverência?
A quem estas palavras que tanto amas,
São disparadas com tanta violência?
Por que despertas neste ar de demência,
Nesta terra que veemente proclamas?
Da incerta fortuna a qual embalsamas,
Escolhes o isto como preferência?
E da paz que pintas no barro, em lamas...
Q'o vento seca sem nenhuma ciência.
A quem falas, a quem invocas a esmo?
- Invoco ao etério, que faz - me eu mesmo.



Fiona apple - Drink's sound

O primeiro calor da manhã

Acordar cedo e o cheiro frio, o cheiro de arder as narinas, o cheiro ácido da madrugada... Fazer a barba. três navalhadas e o sono me tira uma farpa de pele, um fio de sangue escorre, uma linha vermelha anda calmamente, vertical sobre o branco do sabão, um ardor morno, agudo, a navalha é mestra na arte de tirar sangue, o corte demora para calar - se, me rouba o sangue às gotas, às gotas. mochila surrada, sapatos e calças surradas, cara surrada, um vento duro e gélido no peito e um mundo surrado sob os passos, a pressa sobre o corpo que ainda dorme, as pernas forçadas a andar rápido, os pulmões a tragar o primeiro calor do dia, vindo dum filtro de Hollywood, toda paz do mundo amarrada na rudeza dos rostos duros no coletivo e nos berros eclodindo, berros bravíos do meu mp3, ecoando agressivos contra meu cansaço. Chego ao centro e o cheiro frio de urina do Anhangabaú me rouba um sorríso dolorido e grave, essa cidade toda está morta, as pessoas, as calçadas, as muretas, os pombos a ciscar, as paredes sujas e pixadas, toda a cidade como uma óde ao silêncio das cousas, a paz hiperbólica do que se observa calado, mesmo com os gritos dos pneus e os blabladear dos que não se entendem, a cidade é um silêncio gelado da madrugada e fedendo a urina e um cinza - Anhangabaú. e o que restou da manhã foi só o gosto amargo de cigarro na boca e o corte meio fundo da navalha que o vento do fim da tarde faz arder no pescoço. carpe diem.



Deftones - Rx queen

Johann Wolfgang von Goethe

Uma afronte a Fausto...


~ Mater amorosa ~


(Na encosta esverdeada da muralha, a imagem
da Senhora dos amores, com jarras de flores a cercando.)

FLOR DE JASMIM, pondo perfume nas jarras:

Oh! não suma,
Senhora que a alma perfuma,
A graça desse olhar à minha certa sorte!

Com a espada na bainha,
O coração servo de uma rainha,
Contemplas, fervorosa, o teu Filho sob o norte.

Ergues a Deus o olhar,
E com teu suspirar
Pedes que o Amor seja mais que forte.

Quem sente
O ardente
Fogo a acender - me o espírito?
Como este pobre peito suspira,
Pelo amor que a alma cumprira,
A obrigação perfeita de ser vivo para o infinito!

Para onde quer que eu for,
Que cor, que cor, que cor...
Aqui, dentro de nós!
E, mal estou em mim,
Una - te a minha alma,
Sorrio, sorrio sem fim.

Os vasos da janela,
D'amor reguei.
Quando hoje de madrugada,
Com as flores de mim te cortejei.

E logo que ao nascer
O sol no quarto entrou,
Já disposto na janela
A sorrir me encontrou.

Guarda - me! livra-me da ausência, me conforte!
Oh! não suma,
Senhora que a alma perfuma,
A graça desse olhar à minha certa sorte!

Tempo

Sentei - me à todas as más conclusões de mim, à margem alta do inacabado, e meus pés mesmo com estas pernas tão longas, não tocavam o chão. sentei - me e com minhas mãos de homem, segurei todas as minhas inconclusões entre as palmas e os meu dez dedos, e não há criança no mundo com dedos e palmas menores que os meus, sentei - me a balançar os pés no ar e a deixar todas as minhas inconclusões cairem por entre meus pequenos dedos, de forma meticulosamente descuidada.
Derramei as poucas inconclusões que cabiam firmes em minhas mãos, se não posso segurar todas, então me ponho a segurar nenhuma.
O cigarro amassado no bolso, o esqueiro de fogo falho e a certeza do imediatismo como maior das conclusões, a certeza do agora como certeza absoluta e pungente, como o agora neste céu de um azul escurecido das dezenove horas, da mancha cinza que sai do meu pulmão e suja o azul póstumo do dia, do meu murmurar de alguma velha música apenas para quebrar o silêncio de mim mesmo, as pequenas e sujas coisas que vão se intercalando e compondo este gerúndio de agoras, o imediatismo irremediável de se viver cada instante de cada vez. O irremediável de ter plena consciência do Tempo.



Mark lanegan - Man in the long black coat

4.12.08

E se faz

E se faz no pé direito, no caminhar neste sem jeito, um sapato e dois buracos na sola, um peito e uns tantos mil cacos, e o que assola? sabe Deus. e continuo escrevendo sem ponto, e continuo descrevendo meu conto, num contraponto entre o que encontro e o desencontro dos meus pensamentos, dos meus juramentos de crer no que meus olhos dizem, no que meus pés pisem, no que o verbo me sujeitar, e conjugar em todas as pessoas, do plural e do singular, sem me atar que o verbo prosseguir é só um verbo, que os dois buracos na sola são só adjetivos esburacados e meus, e que o peito em tantos mil cacos, é só mais um peito desta cidade de tantos mil cacos.

E se faz no pé esquerdo, um caminhar em desrespeito, ao chão já tão assoitados pelos pés apressados, desassocegados. passos, dez aos sussegados, mil aos desatinados dos pés esquerdos e descompassados, cansados de serem castigados pelas cabeças obesas de pensamentos gastos, calçadas como mastros, calçados erguidos aos astros em colapso, dum universo todo feito em lapso, duma mente feita corrente, num "que" demente, sempre em frente, sempre incoerentemente à frente, irracionamente seguindo o mar de gente, o ar influente num gerúndio displicente que acaba com a vida da gente, que acaba na vida da gente, que morre com a gente, que morre a gente.


E se faz na cabeça um mundo todo que se esqueça. e na cabeça uma dúzia de rosas murchas, uma pobreza, de cor de perfume e de tudo que desapareça numa hora de silêncio e meia, num a fora, numa calçada como teia, tecida pelos passos apagados dos massos de cigarros tragados, das cabeças esfumaçadas e de paladar amargo, das cabeças dos pés direitos e esquerdos, dos defeitos e acertos tão desconsertados. Todos fadados: pés, cabeças e calçadas e massos, todos enfadados, todos lançados como dados a esta arte que parte em cacos e mais cacos a quem tenta a ela sobreviver. A arte de viver.


E se faz no espírito...




Iron & wine - Bird stealing bread