19.1.10

Centro velho

O pombo chia algumas palavras ilegíveis no meio fio vazio do início da manhã.
cisca duas gimbas de cigarro e um plástico sujo do mcdonalds, não há muito o que se comer além de cigarros e mcdonalds nos encontros das ruas do centro velho.
Eu como os cigarros, como o silêncio pungente e agudo dos meus passos apressados e quebrados das calçadas, calçadas como pratos sujos, pratos dos pombos que chiam qualquer coisa balbuciada de forma ilegível, enquanto eu transpasso o silêncio abarratador com os estalos firmes dos meus passos meio frouxos do piso cansado e torto do centro velho.

migalhas sujas de barulho que infestam o meio fio das calçadas do centro velho.
e é tudo um chiar de coisas ilegíveis...

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23.12.09

Paroxítonas.

No fim é tudo carbônico. tudo ascende e declina numa velocidade inabalável, o fósforo no cigarro, o cigarro em meus dedos, meus dedos no ar, o ar em meus pulmões, meus pulmões no tempo, o tempo. o tempo é um ceifeiro louco abatedor de cabeças. incorruptível, inalcançável, todas as paroxítonas soberbas e irrevogáveis, o tempo o é.
o tempo é uma besta sem rédias carregando ante si a carroça torta dos meus dias, carroça de madeira podre sobre rodas de aço inoxidável,
paroxítonas titânicas, o tempo o é.
marteladas de carvão e carne, faiscas nos ossos e asfalto, corrói nervos e barro, pedras e pensamentos, o tempo o é.
as cordas frouxas entre minhas mãos rasgadas e o pescoço do monstro das horas sempre ficam neste quase escapa, neste quase enforca, no fim é tudo carbônico.

e o eterno é só uma gota de suor que escorre na testa do animal
que puxa a carroça maltratada de mim.

no fim é tudo um processo cartesiano - carbônico,
e o lúdico morre n'um canto mordido da boca.


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