15.7.10

À ferrugem

Do lado de dentro o vento é mais forte, mais frio.
mastigo o arame das minhas palavras, e é tudo um gosto morno de ferro, a língua dilacerada das palavras à ferrugem. do lado de dentro as palavras são o que mastiga a língua e os dentes, apenas assistem mudos o atritar dos pensamentos, quietos e encolhidos com o ar frio de dentro.


Há um inverno todo do lado de dentro.

e a cidade vai assim: longe,
com as mãos frias e os olhos perdidos de inverno.

do lado de fora o rosto da cidade é mais doce.
do lado de dentro o inverno veio ter comigo,
cativou meus dedos roxos e meus dentes cerrados.
cativou a ferrugem do meu sangue
e o arame farpado das minhas palavras.


- deixa estar o inverno das horas, deixa estar...



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21.5.10

esparsas

O cigarro trepida em minha boca,
como um galho quase solto de mim,
o vento tropeça na minha cara
com seus sapatos sujos da rua
com seus passos desajeitados da vida
como as coisas que se despedem aos solavancos
sem vírgulas ou pontos certos
numa tirada só, como esse texto mal feito

mal pensado.

idéias esparsas acabam como meu cigarro fino.
acabam às sapatadas do vento.

idéias esparssas como um livro de páginas rasgadas,
n'um que de quase entender.


a trepidação e o assovio prevalecem.

silêncio parvo de mim.