Minha cabeça doi, doi às pontadas, aos latejos... dor que não esfria no gélido dos azulejos do banheiro, que não desfia nos aleijos do que seria o primeiro em minha própia cabeça, mas que não o é: - eu mesmo.
Minha cabeça borbulha como água fervendo para o café, minha cabeça é um gole de café grosso e sem açucar, amarga até perder o paladar; amarga de não se esquecer do fervor por não sair do paladar o amargor, singular e forte, minha cabeça má coada e doce como o asfalto que nunca dorme.
Minha cabeça cinza como os carros e as pessoas nas ruas, minha cabeça caótica e barulhenta como as seis da tarde, minha cabeça engarrafa e estridente no barulho que sai dos volantes aos murros, nas buzinas que ecoam nas outras cabeças que vazias, seguem mecanicamente para a frente, minha cabeça cheia de barulhos vazios e altos, minha cabeça de fronte ao semáforo que nunca abre, ouvindo todas as ofensas que o mundo se nega a ver.
Minha cabeça doi, mas o físico não sofre, a dor não corrompe meu crânio, minha cabeça doi no espírito, minha cabeça tem alma, sim... minha cabeça doi, mas a dor não mata a carne, a dor do espírito é como um osso na boca do cão, minha cabeça corroida das mordidas do cão dos meus pensamentos, minha cabeça como um orgão falído e decrépto...
A cabeça do meu espírito cruza a rua com toda a hipocondria do mundo,
e um punhado grande de dores verdadeiras.
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25.6.09
24.6.09
Três dedos de fumo.
Mascava três dedos de fumo, debruçado à vertical no poste na esquina, o vento maltrapilho socava seu rosto como um boxeador impetuoso, seu rosto de pedregulhos mal encaixados. observava o caos aparente das coisas, o cão sarnento a roer o resto do frango no lixo, a mulher da cara gorda a roer os restos do marido nos ouvidos, o dono da mercearia vendo as horas pelas costas, ouvindo o assovio do vento e o tictaquear do relógio, uma hora de cada vez, um dia de cada vez... e assim a vida morre grão a grão.
Mascava três dedos de fumo, um murmurar salobro contra o assovio do vento, os olhos trincados como bolas de vidro, areia nos olhos como pó de melancolia. não fala, não chora, morde o seu fumo e expõe as marcas de sua face disforme, como um troféu contra o vento, um troféu amassado e opaco, um troféu de suas derrotas contra o tempo.
Mascava três dedos de fumo, o casal pára a seu lado no ponto do coletivo, a mulher da cara gorda é uma metralhadora de verbos despresíveis contra os ouvidos meio mortos do marido, eis que o marido lhe olha por um instante, então ele pára com seu mascar, olha de volta o homem dos ouvidos doentes, lhe dá um sorríso débil, desses que guarda no canto amargo da boca, e por um instante o marido dos ouvidos doentes percebe que já está morto há alguns anos...
O coletivo vem, o casal parte...
o cão se aproxima com a costela do frango entre os dentes, solta na frente do homem e se senta como quem espera algo. o homem cospe seus três dedos de fumo no cão e some na viela que mora atras do poste. o cão sarnento lambe o fumo amargo que escorre em seu focinho, e chora baixo como quem descobre que já morreu.
ao fim da tarde o guarda da rua passa e vê que a mercearia estranhamente continua aberta, todo o comércio já estava adormecido. ele adentra pela porta e vê, sentado com o rosto agora a favor do relógio, o dono da mercearia, com o coração parado e o relógio da parede a tictaquear a todo vapor.
E na viela já escura, contra a luz fosca do poste, a silueta do banco caído e as pernas penduradas sobre o ar fazem sombra no meio fio. o homem que outrora mascava os três dedos de fumo, balança como um pêndulo com o pescoço amarrado a uma corda, com seu último sorríso débil estampado no seu rosto de pedregulhos mal encaixados.
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Mascava três dedos de fumo, um murmurar salobro contra o assovio do vento, os olhos trincados como bolas de vidro, areia nos olhos como pó de melancolia. não fala, não chora, morde o seu fumo e expõe as marcas de sua face disforme, como um troféu contra o vento, um troféu amassado e opaco, um troféu de suas derrotas contra o tempo.
Mascava três dedos de fumo, o casal pára a seu lado no ponto do coletivo, a mulher da cara gorda é uma metralhadora de verbos despresíveis contra os ouvidos meio mortos do marido, eis que o marido lhe olha por um instante, então ele pára com seu mascar, olha de volta o homem dos ouvidos doentes, lhe dá um sorríso débil, desses que guarda no canto amargo da boca, e por um instante o marido dos ouvidos doentes percebe que já está morto há alguns anos...
O coletivo vem, o casal parte...
o cão se aproxima com a costela do frango entre os dentes, solta na frente do homem e se senta como quem espera algo. o homem cospe seus três dedos de fumo no cão e some na viela que mora atras do poste. o cão sarnento lambe o fumo amargo que escorre em seu focinho, e chora baixo como quem descobre que já morreu.
ao fim da tarde o guarda da rua passa e vê que a mercearia estranhamente continua aberta, todo o comércio já estava adormecido. ele adentra pela porta e vê, sentado com o rosto agora a favor do relógio, o dono da mercearia, com o coração parado e o relógio da parede a tictaquear a todo vapor.
E na viela já escura, contra a luz fosca do poste, a silueta do banco caído e as pernas penduradas sobre o ar fazem sombra no meio fio. o homem que outrora mascava os três dedos de fumo, balança como um pêndulo com o pescoço amarrado a uma corda, com seu último sorríso débil estampado no seu rosto de pedregulhos mal encaixados.
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