Texto de um dos seres de Fernando Pessoa, dos menos conhecidos se comparado a Campos, Reis e Caeiro, mas não menos importante e maior. dito como o própio Pessoa "um semi - heterônimo", talvez maior que os outros por ser semi - heterônimo e por dedução, estar mais próximo do real de Pessoa.
"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!" Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."
FRAGMENTO QUADRAGÉSIMO SEXTO
Livro do Desassossego
Texto integral
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5.2.09
Tempo
Sentado e com as indulgências das horas, sentado e totalmente senhor do paralelismo a tudo o que for dispor meus músculos ao movimento, numa espécie de universo paralelo das cousas que me fazem eu, numa espécie de paralelismo universal de mim pelas cousas, das cousas por mim, num que de cousas e eu, sem distingüir cousas e eu. a janela aberta, a outra fechada, a porta vermelho - verniz, meu rosto de pensamentos abertos, meu rosto de pensamentos fechados, meu rosto pálido - verniz. as horas no estalo agudo do relógio de parede, as horas deitadas na parede e seus estalos agudos, as horas tão tácteis como se os segundos fossem pedaços de metal caindo dos céus em minha cabeça, o paralelismo universal da realidade das horas, da realidade incorruptível das horas. quem prendeu as horas no redondo e alvo objeto na parede? as horas transpassam o objeto na parede e perfuram todo o meu espírito, as cousas não prendem as horas, as cousas no máximo se prendem as horas, pois a hora há sem cousas, mas não há cousas sem horas. sentei - me aqui na cadeira mais certa dos meus pensamentos e sonhei, cinco minutos, uma hora, uma vida... não sei, só as horas do relógio redondo sabem, cochilei e acordei ofegante como em espamos de pensamentos, como se tivesse todos os pensamentos de uma vida em um instante de tempo, espalhei as órbitas doentes dos meus olhos contra o relógio, num afronte mudo de quem quer ofender, questionar de forma ofensiva o que me dera pra sonhar, o motivo pelo qual me deu uma vida toda em gotas estaladas de instantes, o relógio em contra partida nada me respondeu, apenas tictaqueou dentro de seu limitrofe ser que inventa imitar o tempo. ao seu lado há um Quadro, barcos rasgando um azul sujo de branco em direção. direção a que? aonde? apenas em direção, e se cem anos se passarem e se esta parede permanecer de pé, e este Quadro ali também permanecer, ainda estaram as embarcações indo em direção. daqui a cem anos minha matéria será uma fina camada de pó sob alguns punhados pesados de terra, e o tempo continuará sendo medido de forma simplória nestes relógios redondos que vivem nas paredes, e os barcos continuaram indo, apenas indo, no mais sólido uso do verbo ir. e eu já terei sido há tempos o que decidi e abdiquei de mim. A casa branca nau preta.
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