Adelante
Hacia adelante , tropezando , pero por delante.
como un niño aprendiendo a caminar,
como un animal herido a respirar,
como un río fuerte a profundizar,
como el viento en los árboles,
las hojas muertas volar,
por delante,
sin parpadear.
16.6.16
12.4.16
Os amores mais loucos
Os amores mais loucos,
são assim os mais poucos,
na vida.
por que nos interrompem na vinda,
como quem para de fronte a uma vista linda.
por que amarelam e borram as memórias,
na ida.
Os amores mais loucos,
os dos remédios, das ansiedades,
os que desmentem as óbvias verdades,
que rasgam as sanidades,
os que correm das obviedades,
que desaprumam a lida,
são assim os mais poucos,
na vida.
Os amores mais loucos,
destes que açoitam o peito,
que deixam o ser assim, sem jeito,
que mesmo em desaprumo soa amor perfeito,
mesmo com a alma toda perdida,
e a paixão em cacos partida,
são assim os mais poucos,
na vida.
E só Deus viu passar,
e por isso me sorriu na minha dor,
por saber do meu penar,
por sentir o meu amor,
por tocar meu rosto triste e me consolar,
por que seus filhos assim,
são assim os mais poucos,
na vida.
Os amores mais loucos,
são assim os mais poucos,
na vida.
por que nos interrompem na vinda,
como quem para de fronte a uma vista linda.
por que amarelam e borram as memórias,
na ida.
Os amores mais loucos,
os dos remédios, das ansiedades,
os que desmentem as óbvias verdades,
que rasgam as sanidades,
os que correm das obviedades,
que desaprumam a lida,
são assim os mais poucos,
na vida.
Os amores mais loucos,
destes que açoitam o peito,
que deixam o ser assim, sem jeito,
que mesmo em desaprumo soa amor perfeito,
mesmo com a alma toda perdida,
e a paixão em cacos partida,
são assim os mais poucos,
na vida.
E só Deus viu passar,
e por isso me sorriu na minha dor,
por saber do meu penar,
por sentir o meu amor,
por tocar meu rosto triste e me consolar,
por que seus filhos assim,
são assim os mais poucos,
na vida.
Talho
Sempre apaixonada,
sempre caçando um canto,
sempre contando um conto,
sempre trocando um tanto,
sempre fugindo em bando,
sempre assim a vida tocando,
pois sempre fica enjoada.
Sempre desinteressada,
sempre pela metade,
sempre desajeitando a verdade,
sem muito gosto pela piedade,
sempre com a presença apressada.
sempre em pulso a alma que fita,
sempre com olhar desassossegado,
com tempo medido, regrado,
um pé no presente, outro no passado,
num partir descompassado,
num aqui nunca firmado,
num futuro ritmado,
num ir e ir e ir de alma aflita.
sempre remendando,
sempre cosendo um ponto, costurando,
um pano em outro pano emendando,
um talho em outro talho se descarnando,
um beijo em outro beijo remendando,
sempre frustrando e se frustrando,
sempre pela paz distante ansiando,
de atalho em atalho caminhando,
sempre no retorno a si repousando:
coberta com o lençol de pano,
que coseu tentando e tentando e tent...
por tanto se enjoar.
por dançar a vida em desassossego.
Sempre apaixonada,
sempre caçando um canto,
sempre contando um conto,
sempre trocando um tanto,
sempre fugindo em bando,
sempre assim a vida tocando,
pois sempre fica enjoada.
Sempre desinteressada,
sempre pela metade,
sempre desajeitando a verdade,
sem muito gosto pela piedade,
sempre com a presença apressada.
sempre em pulso a alma que fita,
sempre com olhar desassossegado,
com tempo medido, regrado,
um pé no presente, outro no passado,
num partir descompassado,
num aqui nunca firmado,
num futuro ritmado,
num ir e ir e ir de alma aflita.
sempre remendando,
sempre cosendo um ponto, costurando,
um pano em outro pano emendando,
um talho em outro talho se descarnando,
um beijo em outro beijo remendando,
sempre frustrando e se frustrando,
sempre pela paz distante ansiando,
de atalho em atalho caminhando,
sempre no retorno a si repousando:
coberta com o lençol de pano,
que coseu tentando e tentando e tent...
por tanto se enjoar.
por dançar a vida em desassossego.
7.8.15
Pujança
O que eu laço, em lento passo, se não o alento fácil do tormento?
O que eu faço, se não tino o passo, se não fio em aço, o firmamento?
O que eu caço, sem ferida e sem rechaço, sem fumar um maço, sem sentimento?
nada.
27.2.15
A profusão
A profusão dos barulhos externos, os tons, os timbres, os desaprumos da cidade.
A sinfonia destoada da cidade é tão mais certa que os barulhos nítidos das pessoas.
As mesmas vozes, os mesmos timbres, a rotina contratual da co-existência,
pequenos universos provincianos de existir, pequenas almas glutonas por haver.
Antes o cheiro ácido de urina do centro pela manhã, antes o sol quente na nuca da caminhada qualquer,
antes todos os problemas do mundo, a solidão entre uma hora de cigarros e calçadas tortas.
A profusão da cidade, os timbres dos barulhos externos e distantes,
a confusão murmurada é sempre mais sedutora que qualquer delimitação do existir.
18.12.13
Avante
Sentei-me para escrever. e não obstante sentir a dor do silêncio enferrujado dos dedos me tomar, como fazia Bukowski pelas manhãs depois de uma noite de bebedeira e abstração psíquicas, ressaca... meses de ressaca, anos de ressaca por que não dizer assim, sentei-me para escrever. As ruas continuam as mesmas, podres, sujas, com pessoas sujas nas calçadas, com pessoas podres nos restaurantes caros da Paulista, mas eu... bem, eu sou outro, desapaixonado por qualquer quadro, andei durante todo este tempo passado, vi as mesmas molduras, os mesmos quadros, mas "despoetizei" as ruas, "desverbalizei" meus olhos e meus dedos, com um ar inerte cobri com o véu do silêncio as vestes deste blogue, aleijei para com os sentimentos sentidos, mas cá estou, como um Bukowski de ressaca, com o gosto amargo do tabaco e do álcool dormidos na boca, no pensamento, me "redispondo" a escrever verbos que não existem com próclises desaprumadas e neologismos medonhos, como a vida também se faz, em neologismos medonhos e verbos anômalos que surgem a cada pensamento, a cada conversa solta ou a cada pausa do trago, com o convívio com pessoas desaprumadas e anômalas, mas qual delas assim não é?
Ainda fumo dos mesmos cigarros, ainda deito os olhos na poesia escura dos cantos das ruas, dos lábios rachados e dos olhos vermelhos do cansaço da lida, ainda vejo poesia no canto doido e solitário do morador de rua ou nos pombos que lutam pelo resto de comida com este, o carvão da cidade ainda pode tomar de mim as construções catatônicas que outrora me casaram com este espaço, que me desposaram com o agressivo da cidade sob o ângulo débil dos meus olhos.
A vida retoma seu fluxo entre meus dedos trêmulos, amarelos de cigarro e este espaço.
Avante.
6.9.12
Ao meio
Dor de cabeça, e toda metafísica construida entre minha nuca e meus olhos, perdida na enchaqueca que contrai meus pensamentos. dor de cabeça, e todos os pássaros cantando dos meus olhos para fora, toda a ardência da vida lá fora não são par nem verso dos meus pensamentos inflamados, da minha cabeça dolorida e alheia, me imponho meia hora pr'um verso, nada. uma hora, nada. minha cabeça como um enorme salão trêmulo de vozes ilegíveis, ecoando na inadimplência severa de mim para comigo mesmo.
me vejo na encruzilhada desta enorme sala, num banco de madeira com meu cigarro pela metade, calado, ruminando todas as frases escritas pela metade, todos os caminhos feitos em meia volta, todos os sonetos que findaram na segunda quadra, sou o poeta pela metade, o cigarro pela metade, a dor de cabeça pela metade.
mas ainda há a outra metade da cabeça a doer, a metade das frases, os tercetos dos sonetos e o meio cigarro, uma hora e meia ou duas para se escrever metade de algo, que diferença faz? o mundo lá fora está em paz, e eu ainda tenho metade do todo por terminar...
me vejo na encruzilhada desta enorme sala, num banco de madeira com meu cigarro pela metade, calado, ruminando todas as frases escritas pela metade, todos os caminhos feitos em meia volta, todos os sonetos que findaram na segunda quadra, sou o poeta pela metade, o cigarro pela metade, a dor de cabeça pela metade.
mas ainda há a outra metade da cabeça a doer, a metade das frases, os tercetos dos sonetos e o meio cigarro, uma hora e meia ou duas para se escrever metade de algo, que diferença faz? o mundo lá fora está em paz, e eu ainda tenho metade do todo por terminar...
Retalho
O céu azul da manhã ou já branco das chuvas no fim da tarde, é tão belo quanto, a qualquer hora do dia, o que muda no espírito das horas são os olhos e a alma destes olhos para com a cor dos céus, hora o branco chuvoso é mais belo, hora o azul matinal o é. O café... amargo ou doce, tem seu tempo do paladar, mesmo o amargo de ferir a língua, com um cigarro para turvar os olhos, tem sua beleza, talvez pelo turvor a ludibriar os olhos, talvez por ser belo a parte o gosto dos olhos ou do pensamento; belo em si.
Pois os olhos são, senão, duas pequenas rachaduras do espírito, e o espírito é toda uma constelação de rachaduras diminutas, que somadas em suas ínfimas partes, formam o que dizemos ser, ou menos que isso. sim, formam muito menos que isso, provavelmente mais uma parte alheia e bela em si, como um móvel fixado no tempo que lhe cabe existir.
Um fragmento ao acaso, um retalho como deve ser, recortado como o queria que fosse Bernardo Soares, que seja:
"Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."
Livro do Desassossego - Fragmento 9
11.4.12
Lã
Escombros de céu por toda parte,
Névoa da manhã como lã, grossa, intransponível.
E o sol como eu, obtuso, inatingível,
como eu, se esqueceu que é vivo por quê arde.
é o coração branco de lã, que o tempo encarde.
é o céu largado na sargeta, sob enfarte.
Névoa da manhã como lã, grossa, intransponível.
E o sol como eu, obtuso, inatingível,
como eu, se esqueceu que é vivo por quê arde.
é o coração branco de lã, que o tempo encarde.
é o céu largado na sargeta, sob enfarte.
9.4.12
Osip Mandelstam
Epigrama de Stalin
Nós vivemos, mas não sentimos a terra com os pés
Dez passos andando e não podemos ouvir,
E quando há dois suficientes para metade de um diálogo
Eles se lembram do alpinista do Kremlin.
Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,
E suas palavras são absolutos, como medidas de merceiros.
Suas antenas de barata estão rindo,
E sua bota nova brilha.
E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto -
Ele brinca com os serviços de meio-homem.
Quem gorjeia, mia ou geme,
Ele sozinho empurra e pica.
Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto
Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho.
Quando há uma execução, há tratamento especial,
E o peito ossétio se infla.
Osip Mandelstam - Novembro de 1933
Nós vivemos, mas não sentimos a terra com os pés
Dez passos andando e não podemos ouvir,
E quando há dois suficientes para metade de um diálogo
Eles se lembram do alpinista do Kremlin.
Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,
E suas palavras são absolutos, como medidas de merceiros.
Suas antenas de barata estão rindo,
E sua bota nova brilha.
E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto -
Ele brinca com os serviços de meio-homem.
Quem gorjeia, mia ou geme,
Ele sozinho empurra e pica.
Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto
Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho.
Quando há uma execução, há tratamento especial,
E o peito ossétio se infla.
Osip Mandelstam - Novembro de 1933
5.4.12
Sépia
Cá está bem, dou por justo, no canto extremo do banco de madeira da praça de ninguém, sento e aguardo com a paciência trêmula do cigarro pendurado pelos dedos, anoiteço as costas no conforto severo do velho banco da praça dos ninguém, e espero.
Que espero? que espera este banco de madeira já tão gasta? a árvore curva ou o homem velho e curvo no outro banco defronte a mim, que esperam?
Um trago, outro... e toda síntese se desmancha no ar como a fumaça que se esvai, par ao barulho distante das coisas, e como em uma fotografia, toda a realidade se emoldura em minha volta. que esperam? não esperam nada, pois esperar é, antes de outra coisa, presumir, anteceder... e não somos deuses inventados rabiscando destinos, eu e o velho banco, a árvore e o velho homem, a praça dos ninguém, a realidade orgânica das coisas, o mundo lá fora que passeia pelos outros olhos que não os meus, somos todos a fotografia suja do agora, e amanhã talvez outra, e depois outra... mas que sempre o tempo, com suas mãos inquietas, rasga cada foto, uma a uma, a cada segundo passado.
Mas dou por justo, no canto extremo deste banco, a consciência da fluidez das coisas por elas mesmas se faz justa, e o peso da urgência fica do lado de fora, na calçada e nas pernas apressadas dos ninguém, mas o banco e o cigarro me confortam, daqui eu vejo o tempo rasgar as fotografias dos ninguém, daqui toda a pressa de existir se torna impressões em sépia, rasgadas, ao vento.
Que espero? que espera este banco de madeira já tão gasta? a árvore curva ou o homem velho e curvo no outro banco defronte a mim, que esperam?
Um trago, outro... e toda síntese se desmancha no ar como a fumaça que se esvai, par ao barulho distante das coisas, e como em uma fotografia, toda a realidade se emoldura em minha volta. que esperam? não esperam nada, pois esperar é, antes de outra coisa, presumir, anteceder... e não somos deuses inventados rabiscando destinos, eu e o velho banco, a árvore e o velho homem, a praça dos ninguém, a realidade orgânica das coisas, o mundo lá fora que passeia pelos outros olhos que não os meus, somos todos a fotografia suja do agora, e amanhã talvez outra, e depois outra... mas que sempre o tempo, com suas mãos inquietas, rasga cada foto, uma a uma, a cada segundo passado.
Mas dou por justo, no canto extremo deste banco, a consciência da fluidez das coisas por elas mesmas se faz justa, e o peso da urgência fica do lado de fora, na calçada e nas pernas apressadas dos ninguém, mas o banco e o cigarro me confortam, daqui eu vejo o tempo rasgar as fotografias dos ninguém, daqui toda a pressa de existir se torna impressões em sépia, rasgadas, ao vento.
4.4.12
Versos à ferrugem
A ferrugem...
Sentado no banco frio e irregular do coletivo,
andando frouxo por entre as ruas maltrapilhas do centro velho,
desviando das centenas de rostos anônimos, rostos abandonados sobre os pescoços do alheio.
Meu olhar frio e irregular, meu olhar sempre frouxo e maltraiplho com a encenação diária que me cerca, meu olhar sempre alheio, sempre a frente do meu pensamento, pois a imagem do real sempre suplanta qualquer pensamento criado, as suposições vivem dos olhos para dentro, sempre de castigo num canto qualquer da cabeça, guardadas nos porões das nossas incertezas supostamente certas, pois só quem é livre é a realidade, a realidade corre pelas ruas com os sapatos confortáveis do tempo, já eu... eu ando descalço sobre o asfalto grosso das incertezas do porvir.
Os vizinhos dos meus olhos continuam perambulando pelos cantos da minha boca: moradores de rua, pedintes, executivos, prostitutas, malabaristas de semáforo, pessoas se enclausurando às dúzias em coletivos e o trânsito que as condena, as ruas e as calçadas sujas, todos ainda coexistem comigo ...
Diz o fim do verso de Álvaro de Campos:
"Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim..."
A ferrugem dos olhos vem de dentro, é antes de tudo o cansaço da própia imaginação.
E os olhos como janelas, o cansaço da imaginação como vidros trincados...
Fiz-me então parte do todo, e é tudo um trincar constante, as ruas e os céus em cinza, todo o concreto e todo abstrato, tudo uma engrenagem maior de vidros sujos e trincados.
A ferrugem...
à ferrugem.
Sentado no banco frio e irregular do coletivo,
andando frouxo por entre as ruas maltrapilhas do centro velho,
desviando das centenas de rostos anônimos, rostos abandonados sobre os pescoços do alheio.
Meu olhar frio e irregular, meu olhar sempre frouxo e maltraiplho com a encenação diária que me cerca, meu olhar sempre alheio, sempre a frente do meu pensamento, pois a imagem do real sempre suplanta qualquer pensamento criado, as suposições vivem dos olhos para dentro, sempre de castigo num canto qualquer da cabeça, guardadas nos porões das nossas incertezas supostamente certas, pois só quem é livre é a realidade, a realidade corre pelas ruas com os sapatos confortáveis do tempo, já eu... eu ando descalço sobre o asfalto grosso das incertezas do porvir.
Os vizinhos dos meus olhos continuam perambulando pelos cantos da minha boca: moradores de rua, pedintes, executivos, prostitutas, malabaristas de semáforo, pessoas se enclausurando às dúzias em coletivos e o trânsito que as condena, as ruas e as calçadas sujas, todos ainda coexistem comigo ...
Diz o fim do verso de Álvaro de Campos:
"Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim..."
A ferrugem dos olhos vem de dentro, é antes de tudo o cansaço da própia imaginação.
E os olhos como janelas, o cansaço da imaginação como vidros trincados...
Fiz-me então parte do todo, e é tudo um trincar constante, as ruas e os céus em cinza, todo o concreto e todo abstrato, tudo uma engrenagem maior de vidros sujos e trincados.
A ferrugem...
à ferrugem.
7.3.12
As esquinas da manhã
As esquinas da manhã, agudas, ferindo meus olhos ainda aninhados de sono,
- mais um cochilo, uma gota a mais de tempo...
- não!
é preciso estralar os ossos, é preciso antes de tudo aprumar o espírito com os olhos, desaninhar os olhos aos solavancos para as cores do porvir, pois n'um piscar do ponteiro do tempo a vida vem correndo, me toma pelos pulmões e nos leva porta à fora, me pede o cigarro e os fósforos, e acende a manhã com as minhas mãos.
"Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor,eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha"
Vida, Vida
Arseni Tarkovski
poema publicado na obra Esculpir o tempo
- mais um cochilo, uma gota a mais de tempo...
- não!
é preciso estralar os ossos, é preciso antes de tudo aprumar o espírito com os olhos, desaninhar os olhos aos solavancos para as cores do porvir, pois n'um piscar do ponteiro do tempo a vida vem correndo, me toma pelos pulmões e nos leva porta à fora, me pede o cigarro e os fósforos, e acende a manhã com as minhas mãos.
"Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor,eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha"
Vida, Vida
Arseni Tarkovski
poema publicado na obra Esculpir o tempo
15.2.12
Faísca
O aço o aço. o osso como aço, o passo raso no asfalto, rápido, leve, de assalto, como quem não toca o chão, como quem roubou o pão de assalto, leve, rápido. o verso de trás p'ra frente, mas sempre em frente, ardente no rosto como o sol nascente, como n'um soco o gosto de sangue vivo que beija o dente. da rosa um maço, do cigarro um maço, todos os perfumes e azedumes no meu regaço, e os pés como aço, arrancando faíscas do asfalto, e a vida me toma, rápida, leve, me toma de assalto, na velocidade do tempo, na ferocidade do asfalto, a vida arranca a rima pobre de mim.
23.2.11
Rotina
Espeta o dedo num grão do dia p'ra não perder a mão inteira no vão do pensamento,
as odes do dia todas amassadas num canto da boca, a poesia é toda aleijo, branca, sem necessidade alguma de ser, como um jornal rasgado em letras miudas, como o embaralho sem obrigação, soma-se tudo e o que se tem é um pensamento calado depois do almoço, quando se fica olhando p'ro canto do prato e ruminando pedaços apagados de idéias, de planos, de coisas póstumas antes mesmo de serem geridas,
então uma piscada firme e se quebra o silêncio miope da retina.
E no fim vai tudo por ralo abaixo quando se escova o porvir,
quando se lava o suor do rosto e se encara o espelho.
O peso do agora desgasta a sola do sapato de couro,
desgasta atoa o couro do meu descanso,
e n'um gole de café eu me descubro na mais orgânica das rotinas,
e, n'um sorriso machucado, espeto o dedo num grão do dia
p'ra não perder a mão inteira no vão do pensamento.
as odes do dia todas amassadas num canto da boca, a poesia é toda aleijo, branca, sem necessidade alguma de ser, como um jornal rasgado em letras miudas, como o embaralho sem obrigação, soma-se tudo e o que se tem é um pensamento calado depois do almoço, quando se fica olhando p'ro canto do prato e ruminando pedaços apagados de idéias, de planos, de coisas póstumas antes mesmo de serem geridas,
então uma piscada firme e se quebra o silêncio miope da retina.
E no fim vai tudo por ralo abaixo quando se escova o porvir,
quando se lava o suor do rosto e se encara o espelho.
O peso do agora desgasta a sola do sapato de couro,
desgasta atoa o couro do meu descanso,
e n'um gole de café eu me descubro na mais orgânica das rotinas,
e, n'um sorriso machucado, espeto o dedo num grão do dia
p'ra não perder a mão inteira no vão do pensamento.
10.2.11
Ponteiro menor
A parte a sombra das horas
eu, e outras sobras, caminhamos de fronte ao relógio
a olhar cabisbaixos o pulso, a mastigar no silêncio convulso
os segundos que aos soluços expulso
sem por reparo na hora inteira, cada qual única, derradeira
que faz de assassino o ponteiro menor e certeiro, o dito das horas.
porém, se trata de um racional metódico,
um ignorante completo, um contador retórico.
que desconhece as razões de guardá-lo no escuro do bolso,
como um surdo para o dito das horas.
eu, e outras sobras, caminhamos de fronte ao relógio
a olhar cabisbaixos o pulso, a mastigar no silêncio convulso
os segundos que aos soluços expulso
sem por reparo na hora inteira, cada qual única, derradeira
que faz de assassino o ponteiro menor e certeiro, o dito das horas.
porém, se trata de um racional metódico,
um ignorante completo, um contador retórico.
que desconhece as razões de guardá-lo no escuro do bolso,
como um surdo para o dito das horas.
22.9.10
1'
O demais aleija.
Todos querem demais, sentem demais, gostam demais,
amam demais, gastam demais o demais.
O ameno é sem gosto, ninguém se interessa pelo comedido,
pelo medido, pelo sem sobras.
de tanto querer demais acaba-se não querendo nada,.
é, o demais aleija.
Todos querem demais, sentem demais, gostam demais,
amam demais, gastam demais o demais.
O ameno é sem gosto, ninguém se interessa pelo comedido,
pelo medido, pelo sem sobras.
de tanto querer demais acaba-se não querendo nada,.
é, o demais aleija.
14.9.10
desconstrução.
O sangue pisado no olho.
o molho sem gosto, pão e água.
a mágoa que serra o punho, a mão.
e que em vão a palavra na boca erra.
um punhado de terra pisada no olho.
a pão e água.
a punho e mão.
a palavra e a boca errada.
o vão.
_
o molho sem gosto, pão e água.
a mágoa que serra o punho, a mão.
e que em vão a palavra na boca erra.
um punhado de terra pisada no olho.
a pão e água.
a punho e mão.
a palavra e a boca errada.
o vão.
_
15.7.10
À ferrugem
Do lado de dentro o vento é mais forte, mais frio.
mastigo o arame das minhas palavras, e é tudo um gosto morno de ferro, a língua dilacerada das palavras à ferrugem. do lado de dentro as palavras são o que mastiga a língua e os dentes, apenas assistem mudos o atritar dos pensamentos, quietos e encolhidos com o ar frio de dentro.
Há um inverno todo do lado de dentro.
e a cidade vai assim: longe,
com as mãos frias e os olhos perdidos de inverno.
do lado de fora o rosto da cidade é mais doce.
do lado de dentro o inverno veio ter comigo,
cativou meus dedos roxos e meus dentes cerrados.
cativou a ferrugem do meu sangue
e o arame farpado das minhas palavras.
- deixa estar o inverno das horas, deixa estar...
_
mastigo o arame das minhas palavras, e é tudo um gosto morno de ferro, a língua dilacerada das palavras à ferrugem. do lado de dentro as palavras são o que mastiga a língua e os dentes, apenas assistem mudos o atritar dos pensamentos, quietos e encolhidos com o ar frio de dentro.
Há um inverno todo do lado de dentro.
e a cidade vai assim: longe,
com as mãos frias e os olhos perdidos de inverno.
do lado de fora o rosto da cidade é mais doce.
do lado de dentro o inverno veio ter comigo,
cativou meus dedos roxos e meus dentes cerrados.
cativou a ferrugem do meu sangue
e o arame farpado das minhas palavras.
- deixa estar o inverno das horas, deixa estar...
_
21.5.10
esparsas
O cigarro trepida em minha boca,
como um galho quase solto de mim,
o vento tropeça na minha cara
com seus sapatos sujos da rua
com seus passos desajeitados da vida
como as coisas que se despedem aos solavancos
sem vírgulas ou pontos certos
numa tirada só, como esse texto mal feito
mal pensado.
idéias esparsas acabam como meu cigarro fino.
acabam às sapatadas do vento.
idéias esparssas como um livro de páginas rasgadas,
n'um que de quase entender.
a trepidação e o assovio prevalecem.
silêncio parvo de mim.
como um galho quase solto de mim,
o vento tropeça na minha cara
com seus sapatos sujos da rua
com seus passos desajeitados da vida
como as coisas que se despedem aos solavancos
sem vírgulas ou pontos certos
numa tirada só, como esse texto mal feito
mal pensado.
idéias esparsas acabam como meu cigarro fino.
acabam às sapatadas do vento.
idéias esparssas como um livro de páginas rasgadas,
n'um que de quase entender.
a trepidação e o assovio prevalecem.
silêncio parvo de mim.
Assinar:
Postagens (Atom)